A Dama de Verde

O Sol não parecia dar descanso afinal era verão, e a estação é a mais quente de todas no Rio. O clima úmido e a sensação de estufa não ajudavam a pele de Fernando que era castigada, e em uma tentativa de se livrar daquela sensação, jorrava suor por todos os seus poros. Nando, como sua bela namorada o chamava, não estava confortável com aquilo. Era natural, afinal quem se sentiria bem com a roupa toda suja de suor. Estava indo visitar um amigo que muito prezava na Lapa.

Nando era um rapaz formoso, contudo não dava a si próprio tal crédito pois era um um tanto quanto introspectivo. Questionava tudo e todos. Começou a mostrar os sinais de inquietude logo na adolescência, algo inerente a idade e comum a todos os adolescentes, todavia Fernando não era um adolescente qualquer. Seus ideais e filosofia de vida não sumiram com tempo assim como acontece com todo adolescente. Eles aumentaram e ele os manteve. Mas isto foi até ano passado.

Fernando havia entrado em um quadro de tormento interno profundo. Nascido e criado na zona norte, nunca tinha lhe faltado nada. Seus pais conseguiram dar aquilo que se esperava deles: Educação e princípios morais. A namorada Francisca era de classe média assim como ele e muito bonita também. Com todo esse ambiente favorável como era possível tal angústia? E aquele vazio?

Passou bons momentos com o amigo. Entre casos da época da universidade e algumas partidas de dama, deram boas risadas fazendo com que a hora viesse a passar mais rápido. E era aquilo que Fernando precisava. O fato de viver daquele jeito estava matando nosso amigo querido leitor. O vácuo que tomava conta do seu ser era crescente. Fernando estava assim por que tinha desistido de lutar contra um sistema em que um dia acreditou e o traiu. Acreditava nas pessoas e na capacidade que tinham de modificar seu entorno e suas vidas. Assim que saiu da universidade estava cheio de ideias inovadoras e queria colocar todas em prática, mas o mundo é cruel com pessoas assim. E com Fernando não foi diferente. Por isso renunciou sua excência para poder viver em paz já que não aguentava mais ver pessoas novas com costumes antigos.

O calor já estava mais ameno e a Lua crescente brilhava no céu. Era tarde e estava no ponto de ônibus da Rua Primeiro de Março. Estavam algumas pessoas ainda no botequim da frente bebendo. Estava cansado e o ônibus não chegava, o que era comum no Rio naquela hora. Olhou para um lado e viu um cachorro comendo o resto de uma quentinha que um mendigo havia deixado ali. O pobre coitado dormiu em cima do papelão e o vira-lata não o poupou. Na sua frente estava a bela igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo, a antiga Santa Sé. Imaginou o ainda príncipe naquela época D. Pedro, saindo da sede da diocese com D. Leopoldina de Áustria após a oficialização do matrimônio.

– Têm lixo ali!

Olhou para seu lado direito e viu uma bela moça de camisa verde e cabelos lisos em um corte chanel. Ela indicava com o dedo para um homem a caçamba de lixo. Não comprendeu muito bem a situação até ver o tal homem se agachar e recolher um papel de bala que o mesmo havia arremessado contra o passeio público.

Ficou muito intrigado com o ocorrido. Ele mesmo já tinha passado por várias situações semelhantes mas o medo de ser repreendido ou até mesmo agredido tinham feito com que nosso Nando viesse a se calar.

Uma sensação estranha começou a tomar conta de sua mente que era inquieta por natureza. Achou a atitude daquela jovem moça algo maravilhoso e sentia-se atraído. Queria estar do lado dela. Queria saber o que ela pensava, suas opniões e seus pontos de vista. Ao perceber que o vazio estava começando a falar, resolveu entrar em conversação com este. Ficou ali contemplando os transeuntes esperando o ônibus chegar.

– Com licença. Sempre demora assim pra passar?

Levou um susto e acordou do sono que o jogava em um abismo sem precendência.

– É… Sempre.

– Mais é um absurdo.

– Concordo. É sempre assim.

– Não deveria.

– Concordo.

A essa altura fernando estava buscando uma palavra que não fosse “concordo” para dizer no decorrer do diálogo.

– Se eu pudesse pegava um táxi.

– Você está indo para que lugar?

– Glória. E você? Santos dumont.

Estava eufórico e em um ato que surprendeu a si mesmo, indagou:

– Quer dividir um táxi?

– Sim.

Tremeu.

Tinha pouco tempo com ela para conversar, afinal o aeroporto ficava perto dali. Um mundo de ideias e perguntas corriam de um lado para o outro dentro de sua cabeça, não conseguia tomar nenhuma atitude. Não era preciso. A mesma atitude que fez com que a jovem tivesse questionado o pobre coitado da rua, ela o teve com Fernando. Começaram a conversar e não pararam mais. Tinham muita coisa em comum. Quando perceberam já estavam na sua casa na Glória entre beijos e carinhos. Uma noite para não ser esquecida.

O despertador irritante do seu celular tocou acordando assim o nosso novo apaixonado. Se virou para acarariciar sua mais nova princesa e se deparou com o vazio da cama.

– Onde ela está?!

Viu uma taça de vinho chileno do lado da cartela do anti-depressivo que tinha começado a tomar. Uma mistura um tanto quanto perigosa.

– Poderia ter morrido.

Disse sua consciência.

Oliva

Passou o resto do dia vegentando no trabalho. Cada vez que lembrava o rosto da jovem sentia como se uma bigorna batesse em sua cabeça. O que poderia fazer para se livrar daquela mentira provocada por sua fraqueza? Levantou e foi pegar um café. Ao voltar para sua mesa, atualizou seus emails, deletou alguns e guardou outros.

Ficou vagando pelas ruas do Centro. Botequins, prostíbulos e todo tipo de gente começavam a surgir pela noite. Voltou mais uma vez para a porta da igreja do dia anterior e no cantar das onzes horas da noite os sinos vibraram juntamente com o seu celular. Que logo recolheu em suas mãos.

“- Cheguei bem. Obrigado pela noite de ontem! ;-)”

Uma tontura tomou conta do seu ser. Ela era real assim como seus sonhos. Ela o fez feliz por uma noite inteira. Seus sonhos se não viesse a desisitir poderiam o fazer feliz por toda a eternidade.

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One Response to A Dama de Verde

  1. Daniel says:

    Excelente texto Andrezinho !
    Nota dez do início ao fim.
    Um grande abraço

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