O Valor da Matemática

Arialdo era um típico nordestino. Estatura baixa, cabeça e tronco pequenos, mas dotado de grande resistência física. Creditava seu porte à buchada que sua avó preparava com tanta perfeição e dedicação. Tinha saudades daquela velha. Os anjos do Senhor a levaram antes que a ambulância pudesse chegar. Convenhamos, eles cansaram de esperar o socorro e resolveram levar a pobre, afinal, era mais fácil chover na caatinga do que os doutores chegarem àquele humilde casebre.

Seu Zé e Dona Margarida, pais de Arialdo, viviam com dificuldade, todavia eram para aquele rapaz o retrato de um povo que através de seu suor, valorizava o trabalho, a família e a religião. As missas dominicais faziam parte da agenda dos membros daquela família.

A seca deste ano não deixava duvidas de que os poucos problemas que já tinham, iriam piorar. O gado padecia pela falta de água e já não rendia a mesma coisa do último ano. Um a um, estavam caindo de fome e sede. Para que o mesmo não viesse a acontecer com seu único “cabra” (dona margarida já havia perdido cinco filhos), Seu José decide pegar o pouco dinheiro que tem no Banco do Imperador e comprar uma passagem – de ida somente – para o Rio de Janeiro.

Arialdo, ao chegar do pouco que restou da lavoura encontrou seu pai, que sem titubear disse: – menino, amanhã tu vai conhecer o mundo, e o mundo vai te conhecer! E assim foi que nosso protagonista partiu no primeiro ônibus, às 4:45 da manhã para a antiga capital federal. (Leitor amigo perdoe o narrador, pois este não vai descrever o transcorrer da viagem, afinal, ela foi tão longa que Morfeu se aproveitou de seu cansaço).

As diferenças eram absurdas. Muito barulho, carros, kombis, ônibus grandes, pequenos e enguiçados. As pessoas pareciam sempre estressadas e sem tempo para nada. Ao ser quase atropelado por uma moto, ouviu de um motoboy sem capacete que “furou” o sinal vermelho, vociferar: – Quer morrer paraíba? – Paraíba? Nasci no Ceará!

Bem vindo à Cidade Maravilhosa.

Conseguiu um emprego como porteiro e a estigma de paraíba não se desfez mais. Após alguns anos, com assaltos ao prédio em que trabalhava, ter seu tênis roubado por um policial militar em um momento de embriaguez e quase ser atingido por um bueiro em ebulição, resolveu abrir seu coração aos céus indo repousar seu corpo físico por volta das 22 horas, pois não aguentava mais ver o Deivid perder gols naquele mísero campeonato carioca. Sonhou:

– Arialdo?

– Sim! Vixe, que voz é esta? Não me aperreie!

A luz dizia: – Não me reconhece?

– Ai Jesus, é o fogo corredor!

– Me poupe menino frouxo.

– Vó?

– Sim, cabra!

– Maria, mãe de Jesus! Por que fizestes isso comigo? Como posso me encontrar no além-túmulo sendo tão moço?!

Leso! Não está morto!

– Como não? Como posso ver a senhora estando vivo?

– É o que dá dormir na homilia. Vim de longe.

– E eu? Sabe quantos dias dentro daquele ônibus?

– Não vou me alongar mais.

– O que quer então minha vó?

– Preciso que mude o mundo.

– Eu? O paraíba?

– Você é cearense e quem nasce na Paraíba é paraibano.

– Mas não estou preparado.

– De certo que não está, mas é preciso mudar.

– Como?

– Não deve deixar que o errado vire certo, e vice-versa. A humanidade hoje caminha para a inversão de valores.

– Nunca pensei nisto.

– Pois não se recorda das suas origens?

– Sim, e muito as prezo.

– Pois então não deve se conformar. Decência, honestidade e integridade devem ser inerentes ao ser e não consideradas adjetivos.

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Quando estava prestes a retrucar à velha, um estrondo vindo da televisão o acordou. Era o gol da vitória, Deivid. Algo estranho tinha realmente acontecido, afinal, o camisa nove já estava a sete jogos sem fazer um gol e aquilo o assustou. Suava frio. Esforçava-se para descobrir o que causava tamanha sensação. Um misto de euforia e medo.

Na noite daquela quinta estava de folga. Combinara com um conhecido de visitar o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas. Não podia estar melhor, muito forró, carne de sol e cerveja. Decidiu que deixaria o recinto lá pelas duas da madrugada, pois tinha que pegar muito cedo no serviço sexta. Resolveu então pedir o carro emprestado ao companheiro e este não teimou em recusar, afinal já estava enrabichado por uma sergipana linda e iria dormir em sua casa, ali mesmo em São Cristóvão.

Assim que o carro embicou na saída do túnel em direção à Lagoa, Arialdo foi parado por alguns policiais que ali estavam. Ao perceber o odor de álcool que exalava de suas vestimentas sujas de batom vermelho, o nobre representante da segurança do povo diz:

Deixa trinta e vai nessa, irmão.

Havia bebido, não podia negar. Entretanto algo fazia que, mesmo de maneira inconsciente, o deixasse apreensivo. Ficou ali, atordoado com aqueles pensamentos sem coerência alguma.

– Posso fazer o teste?

Vai perder meu parceiro.

– Posso?

Contrariava a matemática ao decidir que era melhor arcar com 957 reais do que 30. Não poder dirigir carro por um ano? – não tenho mesmo carro.

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One Response to O Valor da Matemática

  1. kate portela says:

    Muito bom, crítico e construtivo! Parabéns, escritor!

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